Ricardo e sua "espiritualização"
- Heitor G. Fagundes

- há 19 horas
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Ricardo tinha decidido, numa segunda-feira particularmente dramática, que agora sim se tornaria “uma pessoa espiritualizada”. Comprou um caderno bonito, acendeu uma vela aromática e colocou na mesa alguns textos que iria ler.
Sentou-se ereto, respirou fundo e declarou ao universo:
— Estou pronto para evoluir.
No mesmo dia, seu chefe anunciou mudanças na equipe. Ricardo não gostou. Sentiu o estômago revirar, mas rapidamente anotou no caderno: “Aceitar com serenidade. Confiar em Deus.” Fechou o caderno, satisfeito com sua maturidade espiritual.
Na terça-feira, discutiu com a namorada porque ela sugeriu que ele poderia ser um pouco… controlador. Ricardo, ofendido, passou meia hora explicando como ele estava apenas “organizando a vida para o bem comum”. Depois meditou quinze minutos para “purificar a energia dela”.
Na quarta-feira, perdeu uma oportunidade importante no trabalho. Indignado, concluiu que o universo ainda não reconhecia sua dedicação ao caminho espiritual. Chegou em casa decidido a pedir um sinal divino.
Abriu novamente a palestra e seus olhos caíram numa frase sobre como até o caminho pode ser usado como fuga. Ele riu. “Claro, algumas pessoas fazem isso. Ainda bem que não é o meu caso.”
Mas algo o incomodou. Resolveu, pela primeira vez, fazer o exercício sugerido: olhar para o problema externo e perguntar qual atitude interna o sustentava.
Sentou-se sem vela, sem trilha sonora mística. Só ele e o silêncio.
Pensou na mudança no trabalho. Percebeu o medo de perder controle. Pensou na discussão com a namorada. Viu o orgulho ferido. Pensou na promoção perdida.
Reconheceu o desejo secreto de ser admirado como “o mais competente” — e o pavor de não ser.
Foi desconfortável. Não havia vilões externos. Só ele, seu orgulho, sua auto-vontade e um medo sutil que tentava controlar tudo para não se sentir pequeno.
Ricardo percebeu, com um sorriso meio constrangido, que sua “espiritualidade” tinha sido uma tentativa elegante de continuar sendo o mesmo — só que com incenso.
Na semana seguinte, quando o chefe propôs outra mudança, Ricardo sentiu a velha tensão surgir. Mas, em vez de discursar sobre confiança no universo, respirou e admitiu internamente: “Estou com medo de não ser valorizado.”
Algo suavizou. A conversa foi mais simples. Ele ouviu mais. Defendeu suas ideias sem rigidez.
Com a namorada, experimentou dizer: “Talvez eu esteja tentando controlar porque fico inseguro.” Ela quase caiu da cadeira. Depois riu. E a conversa mudou de tom.
Ricardo continuou meditando, lendo, rezando. Mas agora sabia que o verdadeiro trabalho não era parecer iluminado — era parar de fugir do que estava bem diante do seu nariz.
Descobriu que o caminho não servia para escapar da vida, mas para atravessá-la com honestidade. E, curiosamente, quanto menos tentava ser um “ser evoluído”, mais leve se sentia.
Sem fogos de artifício espirituais. Apenas menos resistência, menos autoengano — e um pouco mais de verdade.
E, para sua surpresa, isso já era bastante.
Inspirado na palestra Pathwork 27 que fala sobre como o caminho espiritual pode ser usado como fuga da própria verdade interior.




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