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O problema de Eduardo com “certos tipos de pessoas”

Eduardo tinha uma teoria bastante sólida sobre si mesmo:

Era uma pessoa equilibrada, razoavelmente madura e, sobretudo, muito consciente das próprias questões.


— Claro, ninguém é perfeito — dizia com serenidade quase profissional.


O curioso é que, apesar de toda essa consciência, sua vida parecia repetir certos padrões com uma precisão irritante.


No trabalho, frequentemente se sentia desvalorizado.

Nos relacionamentos, acabava magoado.

E em amizades, mais cedo ou mais tarde, surgia a sensação de que não era realmente compreendido.


— Impressionante como as pessoas decepcionam — comentava, tomando café com um ar filosófico.


Até que, numa conversa qualquer, uma amiga perguntou:

— Eduardo… você já percebeu que essa sensação aparece em quase todas as áreas da sua vida?


Ele respondeu imediatamente:

— Sim, eu já sei que tenho dificuldade com confiança.


E mudou de assunto com a eficiência de quem fecha rapidamente uma porta interna.


Mas a frase ficou ecoando.

Naquela noite, sozinho em casa, Eduardo começou a pensar.

Percebeu que fazia isso com frequência.

Quando algo desconfortável aparecia sobre ele mesmo, tinha duas reações automáticas.

Ou dizia:

— Isso eu já sei.

Ou:

— Não, isso não tem nada a ver comigo.

Em ambos os casos… a investigação terminava ali.

Era elegante, rápido e profundamente improdutivo.


Eduardo riu sozinho.

— Interessante…


Decidiu então fazer algo novo: olhar para suas mágoas sem tentar explicar tudo imediatamente.


Começou pelas situações que mais o incomodavam.

As decepções. Os conflitos repetidos.

A sensação constante de não ser valorizado.


E, pouco a pouco, algo começou a aparecer.

Percebeu que existia dentro dele uma expectativa rígida — quase invisível:

“As pessoas inevitavelmente vão me desapontar.”


A frase surgiu clara.

E junto dela, vieram várias lembranças antigas.

Pequenos momentos da infância em que se sentiu ignorado, diminuído ou emocionalmente sozinho.

Nada espetacular.

Mas suficientes para que uma parte dele concluísse:

— É melhor não esperar demais dos outros.


O problema é que essa conclusão não tinha ficado no passado.

Ela continuava viva.

Silenciosa. Rígida.

Como uma lente através da qual ele enxergava a vida inteira.


Eduardo começou a perceber algo desconfortável: talvez ele não estivesse apenas reagindo às situações.

Talvez estivesse, sem perceber, ajudando a criá-las.

Porque esperava decepção.

Interpretava através da decepção.

E se protegia antecipadamente da decepção.

Era como viver obedecendo uma regra invisível.


Nos dias seguintes, passou a observar esse movimento dentro de si.

E descobriu algo ainda mais curioso:

A imagem não gritava.

Ela parecia lógica.

Esse era justamente o problema.

Ela controlava sua vida sem que ele percebesse que estava sendo controlado.


Mas agora, ao menos, começava a enxergar.

E enxergar mudava tudo.

Não porque a imagem desaparecesse imediatamente.

Mas porque, pela primeira vez, Eduardo conseguia olhar para ela sem negá-la… e sem dizer:

— Isso eu já sei.


Agora havia curiosidade real.

E, pouco a pouco, a rigidez começou a perder força.

Como uma estrutura antiga que só permanecia intacta enquanto ninguém olhasse diretamente para ela.


Inspirado na palestra Pathwork 39 — sobre descobrir imagens inconscientes através das mágoas e conflitos repetitivos, observando sem moralismo as estruturas rígidas que controlam nossa vida.



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