O problema de Eduardo com “certos tipos de pessoas”
- Heitor G. Fagundes

- há 4 dias
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Eduardo tinha uma teoria bastante sólida sobre si mesmo:
Era uma pessoa equilibrada, razoavelmente madura e, sobretudo, muito consciente das próprias questões.
— Claro, ninguém é perfeito — dizia com serenidade quase profissional.
O curioso é que, apesar de toda essa consciência, sua vida parecia repetir certos padrões com uma precisão irritante.
No trabalho, frequentemente se sentia desvalorizado.
Nos relacionamentos, acabava magoado.
E em amizades, mais cedo ou mais tarde, surgia a sensação de que não era realmente compreendido.
— Impressionante como as pessoas decepcionam — comentava, tomando café com um ar filosófico.
Até que, numa conversa qualquer, uma amiga perguntou:
— Eduardo… você já percebeu que essa sensação aparece em quase todas as áreas da sua vida?
Ele respondeu imediatamente:
— Sim, eu já sei que tenho dificuldade com confiança.
E mudou de assunto com a eficiência de quem fecha rapidamente uma porta interna.
Mas a frase ficou ecoando.
Naquela noite, sozinho em casa, Eduardo começou a pensar.
Percebeu que fazia isso com frequência.
Quando algo desconfortável aparecia sobre ele mesmo, tinha duas reações automáticas.
Ou dizia:
— Isso eu já sei.
Ou:
— Não, isso não tem nada a ver comigo.
Em ambos os casos… a investigação terminava ali.
Era elegante, rápido e profundamente improdutivo.
Eduardo riu sozinho.
— Interessante…
Decidiu então fazer algo novo: olhar para suas mágoas sem tentar explicar tudo imediatamente.
Começou pelas situações que mais o incomodavam.
As decepções. Os conflitos repetidos.
A sensação constante de não ser valorizado.
E, pouco a pouco, algo começou a aparecer.
Percebeu que existia dentro dele uma expectativa rígida — quase invisível:
“As pessoas inevitavelmente vão me desapontar.”
A frase surgiu clara.
E junto dela, vieram várias lembranças antigas.
Pequenos momentos da infância em que se sentiu ignorado, diminuído ou emocionalmente sozinho.
Nada espetacular.
Mas suficientes para que uma parte dele concluísse:
— É melhor não esperar demais dos outros.
O problema é que essa conclusão não tinha ficado no passado.
Ela continuava viva.
Silenciosa. Rígida.
Como uma lente através da qual ele enxergava a vida inteira.
Eduardo começou a perceber algo desconfortável: talvez ele não estivesse apenas reagindo às situações.
Talvez estivesse, sem perceber, ajudando a criá-las.
Porque esperava decepção.
Interpretava através da decepção.
E se protegia antecipadamente da decepção.
Era como viver obedecendo uma regra invisível.
Nos dias seguintes, passou a observar esse movimento dentro de si.
E descobriu algo ainda mais curioso:
A imagem não gritava.
Ela parecia lógica.
Esse era justamente o problema.
Ela controlava sua vida sem que ele percebesse que estava sendo controlado.
Mas agora, ao menos, começava a enxergar.
E enxergar mudava tudo.
Não porque a imagem desaparecesse imediatamente.
Mas porque, pela primeira vez, Eduardo conseguia olhar para ela sem negá-la… e sem dizer:
— Isso eu já sei.
Agora havia curiosidade real.
E, pouco a pouco, a rigidez começou a perder força.
Como uma estrutura antiga que só permanecia intacta enquanto ninguém olhasse diretamente para ela.
Inspirado na palestra Pathwork 39 — sobre descobrir imagens inconscientes através das mágoas e conflitos repetitivos, observando sem moralismo as estruturas rígidas que controlam nossa vida.





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