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O dia em que Ernesto tentou consertar o mundo

Ernesto acordou numa terça-feira com uma decisão heroica: colocar ordem no universo.

Começou pelo café da manhã. O pão estava torrado demais. Reclamou com a torradeira. Depois reclamou com o clima, que estava quente demais. Em seguida reclamou com o jornal, que insistia em trazer más notícias.


— Este mundo realmente precisa de alguém responsável — murmurou ele, passando manteiga no pão com a dignidade de um reformador universal.


No trabalho, a situação piorou. Seu colega Marcelo digitava alto demais. A impressora fazia barulhos suspeitos. E, para completar, o chefe aprovou uma ideia que não era de Ernesto.

— Inaceitável — disse ele, franzindo a testa como um filósofo contrariado.


Ernesto passou o dia inteiro tentando, em pensamento, corrigir as pessoas. Reformou mentalmente o comportamento do chefe, educou o Marcelo imaginariamente e reorganizou todo o departamento em sua cabeça.


À tarde, porém, algo curioso aconteceu.


Ele percebeu que estava exausto.


Mas ninguém havia mudado.


Marcelo continuava digitando como se estivesse tocando bateria. A impressora mantinha seus ruídos existenciais. E o chefe… bem, o chefe parecia perfeitamente feliz sem as sugestões invisíveis de Ernesto.


No caminho de casa, sentado no ônibus, ele teve um daqueles momentos raros em que o cérebro resolve cooperar com a realidade.


— Talvez… — pensou — talvez eu esteja empurrando uma porta que abre para o outro lado.


Ele começou a observar seus próprios pensamentos. Cada irritação tinha um pequeno desejo escondido: queria que os outros mudassem, que as coisas fossem diferentes, que o mundo obedecesse à sua lógica particular.


Era um trabalho em tempo integral.

Ernesto riu sozinho.


— Então é isso. Eu estava usando toda minha energia tentando mudar coisas que não posso.


Na manhã seguinte, decidiu fazer um experimento.

Quando Marcelo começou a digitar como um percussionista entusiasmado, Ernesto respirou fundo.

— Certo. Isso não depende de mim.


Mas quando percebeu que estava procrastinando um relatório importante, fez algo novo: arregaçou as mangas e começou a trabalhar.


Curiosamente, o dia ficou mais leve.


Ele não tentou mais consertar o universo inteiro. Apenas cuidou do pequeno território onde realmente podia agir: suas atitudes, suas escolhas e suas reações.


E pela primeira vez em muito tempo, Ernesto voltou para casa com energia sobrando.

O mundo continuava imperfeito, claro.


Mas, curiosamente, ele parecia um pouco mais harmonioso dentro dele.


E, como Ernesto descobriu naquele dia, quando usamos nossas forças no lugar certo, a vida deixa de parecer uma luta contra o vento… e passa a parecer mais uma dança.


Inspirado na palestra Pathwork 29 — sobre reconhecer quando agir com vontade consciente e quando aceitar com humildade aquilo que não podemos mudar.

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