O Mar da Vida Depois dos 40
- Heitor G. Fagundes
- 7 de ago.
- 2 min de leitura
Depois dos 40, a vida muda de tom. Não é mais um rio correndo apressado pela juventude — torna-se mar. Um mar profundo, às vezes revolto, às vezes calmo, sempre vasto.
Nesse novo oceano, ganhamos uma espécie de alforria. Já não precisamos mais pedir licença para ser quem somos. Já vivemos o suficiente para saber que agradar a todos é impossível — e, francamente, desnecessário.
Se alguém torce o nariz para nossas escolhas, respiramos fundo e pensamos: "Já tenho mais de 40." É uma libertação que vem com o tempo, uma permissão silenciosa de ser mais autêntico, mais leve, mais inteiro.
Mas não se engane — esse mar também pode ser turbulento. As ondas do cotidiano parecem crescer. Filhos, pais envelhecendo, cargos de liderança, decisões difíceis... tudo pesa mais. O corpo sente, a mente cansa, o coração pede por pausas que raramente vêm. A conta chega — emocional, física, espiritual. É um tempo de cobrança, de cansaço. Às vezes de solidão, mesmo cercado de gente.
E surgem as crises. Não aquelas pequenas, passageiras, mas sim as que cutucam fundo. Questionamos caminhos, revisamos escolhas, encaramos de frente aquilo que evitamos por anos. E dói.
Dói perceber que certos sonhos talvez não se realizem mais. A maternidade ou paternidade que não veio, a carreira que não decolou como imaginado, o amor que não aconteceu — tudo isso pode pesar como âncora no peito.
É triste quando somos pressionados a mudar algo que nem sabíamos que estava prestes a ruir. Às vezes, não foi uma escolha. Foi o tempo, a vida, o outro. Ficamos diante de um espelho e mal reconhecemos quem está ali.
Mas é justamente nesse ponto — no meio do mar revolto — que algo precioso pode emergir: o mergulho interior.
O autoconhecimento, quando verdadeiro, não é luxo; é boia salva-vidas. É ele que nos ensina que não somos fracassos ambulantes, mas sim obras em constante construção. Ele nos ajuda a resgatar o que fomos, entender o que somos e, acima de tudo, escolher o que ainda podemos ser.
Depois dos 40, o mar da vida exige coragem. Mas também oferece beleza — a beleza de remar com mais sabedoria, de deixar para trás o que já não serve, e de olhar o horizonte com olhos mais serenos.
Porque, no fim das contas, não se trata de controlar as ondas — mas de aprender a navegar com mais verdade.

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