O elegante plano de controle de Augusto
- Heitor G. Fagundes

- 24 de mar.
- 2 min de leitura
Augusto era, sem dúvida, um homem organizado.
Tão organizado, aliás, que tinha um plano detalhado para praticamente tudo: carreira, relacionamentos, horários, respostas ideais para conversas e até expressões faciais adequadas para cada ocasião.
— A vida funciona melhor quando bem administrada — dizia ele, ajustando o relógio no pulso com precisão quase filosófica.
O único problema era que… a vida não tinha sido informada desse plano.
Naquela semana, três coisas saíram do controle: um projeto importante deu errado, sua namorada disse que ele parecia distante e um amigo comentou, casualmente, que Augusto “nunca relaxava de verdade”.
Augusto não gostou.
Na verdade, ele ficou profundamente incomodado — mas, claro, não demonstrou. Manteve a postura impecável, respondeu com lógica refinada e, internamente, decidiu que precisava se esforçar mais ainda para manter tudo sob controle.
Naquela noite, deitado na cama, percebeu algo curioso: estava exausto.
Mas não era um cansaço físico.
Era como se estivesse constantemente segurando algo… como se não pudesse soltar.
Resolveu então fazer algo incomum: em vez de pensar em soluções, decidiu observar.
Primeiro, notou um pensamento recorrente: “As coisas precisam acontecer do meu jeito.”
Depois, percebeu outro, mais sutil: “Não posso parecer fraco.”
E, por baixo de tudo isso, encontrou algo que tentou ignorar — mas não conseguiu.
Medo.
Medo de não ser suficiente.
Medo de perder controle.
Medo de ser rejeitado se não estivesse sempre “certo”.
Augusto ficou em silêncio.
Era desconfortável perceber que toda sua eficiência elegante talvez fosse… uma defesa bem disfarçada.
Nos dias seguintes, começou a notar esses três movimentos dentro de si.
Quando algo não saía como queria, surgia a força rígida tentando ajustar tudo — como se pudesse dobrar a realidade.
Quando alguém se aproximava demais emocionalmente, vinha uma espécie de postura interna, quase automática, protegendo sua imagem.
E, no fundo, sempre aquele leve tremor invisível: o medo de simplesmente ser… humano.
Numa conversa com a namorada, ela disse:
— Às vezes eu sinto que você está sempre tentando estar certo, mas nunca realmente aqui.
Augusto respirou.
Normalmente, ele teria uma resposta perfeita.
Mas dessa vez disse apenas:
— Acho que estou com medo de não saber como estar aqui de outro jeito.
Houve um silêncio.
E, pela primeira vez em muito tempo, não era um silêncio desconfortável.
Era… real.
Algo começou a mudar.
Augusto não abandonou seus planos, nem sua organização. Mas começou, aos poucos, a soltar a necessidade de controlar tudo, a permitir pequenos erros, a admitir quando não sabia — e, principalmente, a não fugir imediatamente do que sentia.
Descobriu que, quando não precisava estar sempre certo, podia estar presente.Quando não precisava se proteger o tempo todo, podia se conectar.E quando não tentava controlar tudo… a vida não desmoronava.
Na verdade, ela fluía melhor.
E, para sua surpresa, aquilo que ele mais evitava — a vulnerabilidade — acabou sendo justamente o que trouxe mais leveza.
No fim das contas, Augusto ainda era organizado.
Mas agora, com um detalhe novo:
Ele já não precisava organizar o próprio coração como se fosse um problema a ser resolvido. Inspirado na palestra Pathwork 30 — sobre como a auto-vontade, o orgulho e o medo formam um núcleo que bloqueia o amor e a verdade interior.




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