O segredo muito bem escondido de Helena
- Heitor G. Fagundes

- 31 de mar.
- 3 min de leitura
Helena era uma pessoa admirável.
Sempre gentil, sempre adequada, sempre com a resposta certa na hora certa. Se alguém perguntasse como ela estava, ela sorria com precisão:
— Tudo bem.
E era um sorriso convincente. Tão convincente que, com o tempo, ela mesma começou a acreditar nele.
Mas havia pequenos detalhes.
Ela evitava certos assuntos. Mudava de tema com elegância quando a conversa ficava mais pessoal. E, curiosamente, sentia um leve desconforto sempre que alguém dizia:
— Você parece tão segura…
Helena agradecia, claro.
Mas por dentro pensava: Se você soubesse…
Numa noite comum, depois de um dia longo, ela chegou em casa com uma sensação estranha — uma mistura de cansaço e um vazio difícil de explicar.
Sentou-se no sofá, tirou os sapatos e ficou em silêncio.
Sem saber bem por quê, deixou a mente vagar até aquele ponto que sempre evitava.
Aquela parte dela que não combinava com a imagem organizada que mostrava ao mundo.
Um erro antigo.Uma insegurança persistente.Um sentimento que ela julgava “inaceitável”.
Imediatamente veio o impulso de afastar aquilo.
Mas, dessa vez, ela não afastou.
Ficou ali.
E, para sua surpresa, percebeu algo curioso: o desconforto não vinha exatamente do que ela sentia… mas da ideia de que não deveria sentir aquilo.
Era como se existisse uma voz dizendo:
— Isso é feio demais para existir em você.
Helena respirou fundo.
Pela primeira vez, considerou outra possibilidade:
— E se… isso simplesmente for uma parte de mim agora?
A frase pareceu quase proibida.
Mas algo dentro dela relaxou levemente.
Nos dias seguintes, começou a notar um padrão. Sempre que se sentia insegura, cometia um erro ou pensava algo que não achava “bonito”, surgia uma reação imediata: esconder, corrigir, disfarçar.
E, junto com isso, uma sensação silenciosa de inadequação.
Como se estivesse constantemente em dívida consigo mesma.
Até que, numa conversa com uma amiga próxima, algo diferente aconteceu.
A amiga comentou sobre uma dificuldade pessoal, rindo de si mesma com leveza.
Helena ouviu… e, sem planejar, disse:
— Às vezes eu sinto algo parecido… e fico meio envergonhada disso.
Houve um pequeno silêncio.
Não um silêncio pesado. Um silêncio vivo.
A amiga não se afastou. Não se chocou. Apenas respondeu:
— Eu também.
Helena piscou, surpresa.
Algo muito simples — quase banal — tinha acontecido.
E, ainda assim, parecia enorme.
Naquela noite, ela percebeu que tinha passado anos tentando parecer melhor do que se sentia por dentro. Não por maldade, mas por acreditar que precisava esconder certas partes para ser aceita — até por si mesma.
Mas quanto mais escondia, mais distante se sentia.
E quanto mais distante se sentia… mais precisava sustentar a imagem.
Era cansativo.
Aos poucos, Helena começou a experimentar algo novo: não desistir de melhorar, mas também não fugir do que ainda não estava resolvido.
Ela parou de exigir perfeição imediata de si mesma. Começou a reconhecer suas imperfeições sem dramatizar, sem se condenar — apenas vendo.
E, curiosamente, algo mudou.
Ela se sentia mais… real.
Mais próxima das pessoas.Mais tranquila dentro de si.Menos preocupada em sustentar uma versão ideal.
Helena continuava sendo gentil, organizada e cuidadosa.
Mas agora havia um detalhe diferente:
Ela já não precisava esconder de si mesma quem ainda estava em processo de se tornar.
E isso, descobriu, trazia uma forma silenciosa — e profunda — de paz.
Inspirado na palestra Pathwork 31 — sobre transformar a vergonha destrutiva em aceitação humilde, permitindo autenticidade, autorrespeito e crescimento interior.




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